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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Retrato Robot de um Informático




Suponhamos que tem 42 anos. E trabalha nestas coisas dos computadores há 18. Terá, por hipótese, aquela formação que se costuma designar por "Frequência Universitária" e passou portanto pelo caldeirão das crises académicas dos anos 60.

Os primeiros manuais que lhe meteram na mão foram, provavelmente, ainda os referentes ao "material clássico", máquinas devoradoras de cartões perfurados que os separavam, ordenavam, e totalizavam valores neles contidos.
Esta coisa dos cartões perfurados é já dificil de explicar aos filhos mas os mais velhos ainda se lembram concerteza dos rectangulos de cartolina, cheios de furos, em que lhes chegava a conta da luz.

A programação nesses tempos era uma especie de tricot feito com fios que se emaranhavam disputando uma matriz de orifícios que davam aos painéis um ar de favos metálicos.
Os operadores eram rapazes robustos que passavam horas manipulando milhares de cartões que manuseavam como acrobáticos jogadores de cartas num jogo de milhares de baralhos. Os cartões andavam numa roda-viva da separadora para a ordenadora e daí para a tabuladora num circuito só interrompido pela catástrofe de uma temida queda. Os operadores trajavam uma incompreensível bata branca.

A tecnologia deu um salto e os programas passaram a residir na memória dos computadores. O tricot agora passara para a escolha das instruções dos programas que tinham que caber em memórias tão pequenas que fariam rir os nossos ases do "Spectrum".

Depois vieram os suportes magnéticos para os dados; primeiro as bandas depois os discos e por fim as diskettes. Foi uma revolução e um drama. A informação deixou de estar ao alcance da vista (já não era possivel pregar a partida aos novatos de os mandar procurar aquele "8" perfurado por engano e que era preciso colar no respectivo buraco do cartão).
Mas as máquinas eram mastodonticas e só atendiam um utilizador de cada vez.
Formavam-se bichas e havia discussões pois que a falta de uma virgula obrigava a mais uma hora de compilação do colega anterior. Ninguem se atrevia a fazer planos mais rigorosos do que ao nível dos dias ou das semanas.

Por isso foram bombásticas as primeiras experiências de "spooling". Já era possivel isolar as morosas operações de entrada e de saída do trabalho própriamente dito. As unidades de leitura e as impressoras trabalhavam dia e noite independentes das operações de calculo e agora a luta centrava-se à volta da posição de cada um nas filas de espera de leitura e impressão. Também apareceu um novo cataclismo que consistia no misterioso desaparecimento do nosso mapa que deveria estar no meio da enxurrada despejada pela impressora durante a noite passada.

O salto seguinte teve a ver com os sistemas multiposto com todas as preplexidades resultantes de tentar perceber a lógica que a máquina usava para atender as multiplas solicitações. A guerra transferiu-se para a aquisição de prioridades no atendimento pelo sistema. Os primeiros a ler os manuais entretinham-se a relegar os colegas para estatutos em que a máquina só lhes passava cartão quando não tinha mesmo nada que fazer.

Chegou-se assim aos grandes sistemas de hoje, com centenas de utilizadores locais ou remotos, e com as suas máquinas virtuais que nos dão a ilusão de termos o computador todo só para nós (isto quando o dimensionamento foi correcto pois de contrário em vez de tempo de resposta temos os famigerados prazos de entrega).

Esta breve recapitulação histórica tem como objectivo transmitir aos mais jovens um "cheirinho" das vicissitudes por que passaram os colegas que, como agora parecerá lógico, têm alguns cabelos brancos. As vicissitudes que todos nós, velhos e novos, partilhamos agora com as ultimas palavras da tecnologia ficam para outra ocasião.

Mas vale a pena colocar uma outra questão pertinente depois desta breve viagem pelo passado. Quantas linguagens, comandos e truques foram ficando pelo caminho ?
Quantas palavras-chave, parâmetros e códigos tivemos que aprender para depois esquecer ao longo das nossas vidas ?

Todos os Sistemas Operativos e Arquitecturas foram anunciados com fanfarras de genialidade eterna para morrerem quase de vergonha alguns anos (ou mesmo meses) mais tarde.
Dir-nos-ão que o saber não ocupa lugar. Nada mais demagógico. Com excepção de uma certa disciplina na análise dos problemas pode dizer-se que os conhecimentos que adquirimos (quantas vezes a mata cavalos) não podem ser considerados conhecimento no sentido nobre do termo.

Sentimo-nos um pouco como alguem que tendo aprendido alemão descobrisse algum tempo depois que já ninguem falava tal lingua. Depois aprendesse francês e constatasse que os franceses eram um povo em vias de extinção e assim sucessivamente.

Temos que invejar os velhos camponeses que nem com a esquisitice de um tractor perdem a face perante os netos. Nós temos experiências muito mais traumatisantes com os nossos putos e os seus "pokes".

Quem nos devolve as horas e mesmo noites que mergulhamos nos "traces" de programas cheios de ;,<,),&,%,#,$ ? Como vamos recuperar da erosão provocada por vagas sucessivas de lixas informáticas sobre as nossas memórias pessoais ? Nós fomos a argamassa de todos os "ease of use, "user friendly", linguagens de query, interfaces em linguagem natural, sistemas periciais e outras iguarias com que se empanturram os utilizadores actuais. Que captemos ao menos a lição dos factos e passemos a olhar com maior bonomia o que temos que aprender hoje. Não podemos fechar os olhos, e o espírito, ao mundo em que vivemos sob pena de virmos a ser os velhos mais ignorantes da história da humanidade.

Publicado pela primeira vez em "O Diário" de 29 de Agosto de 1987. Republicado aqui por pensar que é ilustrativo do percurso de muitos de nós.


terça-feira, 22 de janeiro de 2008

F&A traz balanço dos anos 82/84



Em Março de 1984 a Comissão de Trabalhadores procedia, através do Factos & Argumentos, a um balanço das actividades durante o mandato de 1982/84.É interessante para se compreender quais eram as preocupações dominantes dos IBMers nessa época.
O jornal continha também referências aos horários de trabalho e um texto, pleno de sentido de humor, escrito pelo António Godinho e intitulado "A lenda da Flexibilidade". Também inseria um Inquérito promovido pela CT para determinar os temas mais sensíveis que, na opinião dos empregados,deveriam ser tratados.

(clique em qualquer das imagens para a ampliar e iniciar um percurso pelo número 9 do Factos & Argumentos).




quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

O FIM DO CLUBE IBM

Clube IBM - últimos anos



Quando, no texto sob o título “O Clube IBM nas Corridas Pedestres”, apelidei de “MISTERIOSA” a extinção do Clube, tinha como objectivo “provocar” alguns comentários sobre essa discutível afirmação, ou seja, que, por isso, surgissem algumas questões ou esclarecimentos sobre aquele fim “não anunciado”. Como, até agora, tal não aconteceu, acho que devo explicar o porquê de ter recorrido a letras maiúsculas para ilustrar a surpresa sobre o desaparecimento de tal associação, até porque muitos dos colegas, provavelmente, nem se aperceberam do facto, uma vez que já não pertenciam ao “activo” da IBM.

Na história do Clube IBM, como aconteceu com outras agremiações do género, houve alguns altos e baixos, tal como já foi aflorado em mensagens neste “blog”, tendo, naturalmente fruto das lutas entre as várias tendências políticas, atingido, julgo eu, um melhor nível, e mais constante, a partir do 25 de Abril. É sabido, e reconhecido, que para o êxito das iniciativas de maior impacto muito contribuiu a disponibilidade, e interesse, da administração da IBM, independentemente da cor “mais ou menos avermelhada” que se atribuía aos elementos dos corpos gerentes do Clube.
Embora não tenha presente todos os elementos que fizeram parte da penúltima direcção do Clube, aqui ficam alguns nomes – Manuel Diogo, Joaquim Bação, Pedro Albuquerque e Quintas Belo.
Tal como o Redondo relata na proposta apresentada pela CT, em 1984, pedia-se à IBM um empréstimo, para aquisição de carro, no valor de 400 contos que, como é sabido não mereceu a aprovação da administração. Por essa altura, e com alguma surpresa, pois não era habitual tal prática, a direcção do Clube foi convocada para uma reunião com os representantes da administração, onde, como ponto prévio, nos foi exigido “total segredo” sobre o que ali iria ser tratado. Embora tal pedido nos levasse a pensar que a proposta “trazia água no bico”, não nos restava outra solução, para termos acesso ao seu conteúdo, teríamos de aceitar. Tratava-se de conceder um empréstimo aos empregados, para aquisição de “aparelhagem de vídeo”, tendo o Clube de suportar a carga administrativa daí resultante. Perante tal situação, pedimos algum tempo para, com toda a direcção, analisarmos a sugestão que, como era evidente, pretendia “contornar” o pedido da CT, com valores mais baixos, e contribuir, ao mesmo tempo, para o descrédito da mesma. Como estavam em causa possíveis benefícios para todos os colegas, entendemos que, só por nós, não devíamos rejeitar tal proposta. Assim, apresentámos a posição saída da reunião de direcção – O Clube convocaria uma assembleia geral para apreciação da proposta (empréstimo) e, se tal fosse aprovado, assumiríamos, apesar das dificuldades, o controle administrativo da mesma.
Claro que a sugestão não foi aceite pela companhia, uma vez que o plano teria de ser aceite por nós e não pelos colaboradores! Desta forma, e para que não constituíssemos um obstáculo à concretização de tal plano, que poderia interessar a grande número de empregados, e porque, certamente, as relações entre as duas partes iriam ser afectadas pela nossa negativa, resolvemos não apresentar qualquer lista á eleição, que se aproximava, dos novos corpos gerentes do Clube, empenhando-nos, no entanto, na motivação de vários colegas para que fosse apresentada, pelo menos, uma lista a votação. Embora não esteja certo, julgo que a última direcção foi eleita em 1984/85, e, tal como prevíamos, a proposta da Companhia foi posta em prática através do Clube, certamente que ainda estamos recordados desse empréstimo.
Apesar de não integrarmos os novos corpos gerentes, eu e o Albuquerque, continuámos a colaborar com o Clube, no que tocava às Corridas Pedestres, Excursões, etc..

Certamente pelo arrefecimento das lutas partidárias, a atenção sobre o funcionamento daquele órgão também esmorecia, por tal facto, aparentemente, ninguém se mostrava interessado em exigir o cumprimento do expresso nos estatutos, principalmente no que tocava à apresentação de contas e marcação de eleições (de três em três anos).
Para a apresentação dos nossos projectos, uma vez que envolviam algum dinheiro, tínhamos alguns contactos com a direcção do Clube, principalmente com o seu presidente que, a certa altura, parecia ser o único responsável “operacional”, sem que notássemos dificuldades superiores às habituais (o dinheiro era sempre pouco). No entanto, nos últimos meses da minha colaboração com a IBM, as coisas tornaram-se mais difíceis, para além de circularem notícias sobre a falta de pagamento a alguns fornecedores, sendo o exemplo mais falado a “Livraria Barata”. Como estava em marcha a saída de vários colaboradores, como era o meu caso, o elenco directivo, na prática, deixava de existir, não havia quem se responsabilizasse por explicar, mesmo informalmente, o que se passava. Perante tal situação, e de acordo com os estatutos, procurei convocar a Assembleia Geral, reunindo, com alguma dificuldade, as 50 assinaturas necessárias para entregar ao (à) Presidente da Mesa da Assembleia, que, pasme-se, não aceitou o pedido, dizendo que não tinha nada a ver com o Clube e que, se quisesse, o entregasse ao Cerejeira. Por outras palavras, o Clube já não existia!
Apesar de aquele colega, em termos formais, nada ter a ver com o Clube, perguntei-lhe o que se passava, tendo obtido uma resposta, no mínimo caricata - o Clube tinha interrompido a sua actividade. Claro que nada valeu argumentar que tal só poderia ser decidido em Assembleia Geral convocada para o efeito.
Naturalmente que a saída de um grande número de empregados no fim de 1997, onde me incluí, deixou no ar o “MISTÉRIO” - porque se interromperam as actividades, com que bases, e o que foi feito dos pertences daquela associação.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

O Clube IBM nas Corridas Pedestres

Quintas Belo, José Eduardo, Guilherme Pereira Lopes e Manuel Diogo



Em 1980, um grupo de “dissidentes” das habituais futeboladas, entre os elementos da IBM e da Danfoss, que duas vezes por semana se realizavam no estádio 1º de maio, dava origem à equipa de corredores do Clube IBM. Embora o número de elementos, que com mais frequência aderiam às corridas à volta daquelas instalações, tivesse alguma variação, de acordo com a capacidade de resistir às solicitações dos futebolistas, principalmente quando as equipas se apresentavam “desfalcadas”, o núcleo principal era constituído pelo Manuel Diogo, Quintas Belo e Zé Eduardo. Aquelas corridinhas tinham apenas como objectivo a prática de uma actividade física, onde as “caneladas” não marcassem presença. No entanto, o encontro ocasional, com o Guilherme Pereira Lopes, quando, após uma das sessões de treino à hora de almoço, regressávamos ao posto de trabalho, veio alterar os nossos planos, uma vez que aquele colega, já tinha participado em várias provas de estrada integradas no recente movimento de “corridas populares”, nos convidou para “alinharmos” na próxima, uma “meia maratona” que se iria disputar em Paços Negros, próximo de Almeirim. Assim, no dia 26 de Julho de 1980, pelas 18 horas, e após um almoço “à altura” no conhecido “Toucinho”, em Almeirim, a equipa do Clube IBM, constituída pelo Manuel Diogo, Guilherme Lopes e Quintas Belo, apresentava-se na linha de partida, para aquela que seria a primeira de um grande número de participações em provas, durante mais de 25 anos, ou seja, até à “MISTERIOSA” extinção do Clube.


Paços Negros - primeira prova em que o Clube participou
Q.Belo, P.Lopes, M.Diogo


Ainda nesse ano, após as férias, participámos em mais 7 provas, meias maratonas de S.João das Lampas, Nazaré e À-dos-Cunhados, cabendo a estreia internacional à “Carrera Pedestre de Santiago de Compostela”. Em Setúbal, numa prova com a distância anunciada de 15 Kms, mas que devia ter 18, pelo menos, registámos a primeira peripécia digna de registo, não só pela prolongada ansiedade gerada no seio do grupo, numa primeira fase, mas também pelos jocosos comentários e muitas gargalhadas que tiveram lugar após a conclusão da prova. O António Mestre, que queria fazer a estreia naquelas andanças, embora não treinasse assiduamente (era daqueles que cedia aos apelos do futebol), apresentou-se, eufórico, naquela tarde de sábado, disposto a participar na prova, pois até tinha feito um treino de 15 kms no dia anterior (para ter a certeza que aguentava aquela quilometragem). Enfim, lá iniciámos a corrida, com uma volta á pista do Estádio do Bonfim, local onde regressámos após gastarmos bastante mais tempo do que o previsto, resultado, certamente, da maior distância percorrida (não havia GPS). Embora separados, como na maioria das provas, os elementos do grupo foram chegando, faltando apenas o Mestre, cuja demora, numa primeira fase, não admirava, uma vez que estava a fazer a estreia, mas, o atraso começava a ser exagerado e a tarde começava a dar lugar à noite, motivo, mais que suficiente, para que pensássemos o pior, principalmente o Diogo que, mais impaciente, corria entre a meta e a entrada do estádio, na esperança de vislumbrar o colega em falta. Quando a ansiedade já dava lugar ao desespero, eis que surge, aos zig-zags, o tão desejado parceiro que, abraçado pelo Diogo, assim percorreu os últimos metros da prova. Passados alguns minutos, e após a reposição dos “níveis” numa cervejaria próxima, entre risadas, contávamos ao Mestre, o que tínhamos pensado enquanto esperávamos, e como ele tinha entrado no estádio, ao que ele respondeu, para nossa surpresa - não me lembro de ter entrado no estádio!
Nos anos seguintes, o número de provas, que mereciam a nossa presença, nunca ficava abaixa de 25, e o grupo ia engordando, passando a contar com outros “bate-estradas”, como alguns colegas, pejorativamente, nos apelidavam: Carlos Penedo, Joaquim Bação, João Martins, Pacheco do Passo, Manuel Pedro, Pedro Albuquerque, Corte Real, José Dionísio, Fernando Redondo, Susana Alvarez e, com uma ou outra participação, Gigon, Mário Pereira, Catry, Paulo Ponce, Carlos Sardo, Pedro Ivo.
O movimento das corridas populares também se alargava, contemplando várias localidades do país e, de uma forma natural, as camisolas azuis com o emblema do Clube IBM, marcavam presença na maioria das provas, principalmente naquelas que contemplavam as distâncias de 21 quilómetros (meia maratona).

20 Kms de Almeirim - C.Penedo, P.Albuquerque, J.Bação, P.Passo, Q.Belo, M.Pedro e J.Martins



Apesar de naquele tempo alguns entendidos na matéria considerassem um exagero correr a maratona, 42 Kms, “estivemos lá” (Maratona de Torres Vedras) logo no ano de 1982, sendo um novo pretexto para estendermos os nossos horizontes de corridas a outros países. Para quem não se lembra das famosas, e concorridas, excursões organizadas pelo Albuquerque, aqui ficam algumas referências: Nova Iorque, Orlando, Cuba, Londres, Paris, Madrid, Sevilha, Badajoz.


Passagem de testemunho (temporária) de pai para filho (Q.Belo e Rui Belo)



Colaborámos ainda, com esta vertente desportiva, em vários convívios do Clube, Vimeiro e Tróia, e, especialmente para os mais novos, em 24 de março de 1984, organizámos um torneio de corrida na pista sintética do Estádio de Alvalade, a partir do qual, e em provas de distâncias mais curtas, passámos a ter a companhia de alguns jovens, filhos dos nossos colegas (Firme, Belo, Banha, Fava, etc.). Durante 15 anos, participámos em mais de 300 provas e “palmilhámos” vários milhares de quilómetros.
Como dizia um nosso amigo, triatleta, foram (e ainda são) MUITOS QUILÓMETROS DE PRAZER!


Meia Maratona de S.João da Lampas - em plena prova





Maratona de Lisboa (1994) - Passo, Dionísio, Penedo, Albuquerque, Diogo.




António Quintas Belo

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Breve historial dos primeiros dez anos da CT da IBM

(F&A de Nov. 1983 - clique para ampliar)


De 1974 a 1978 a CT sofreu fortemente a influência do PREC. Na sua fase inicial, ainda sob a forma de "Comissão Executiva", teve uma composição marcadamente de esquerda e reflectiu os entusiasmos do momento.

Em Maio de 1975 as eleições para a CT foram ganhas por correntes mais conservadoras que se motivaram por reacção contra o domínio da esquerda, o que correspondeu ao movimento geral do país que culminou no 25 de Novembro.

Esta situação prolongou-se, embora de forma cada vez mais desmotivada, até 1978.

Em 1979 tomou posse uma CT que representava o retorno da influência de esquerda embora constituída por elementos com imagem partidária pouco vincada.

Deu-se início a um trabalho de reorientação da actividade da CT para temas “internos” e a ligação ao "movimento popular de massas" passou, em grande medida, a ser assegurada pelos delegados sindicais.

Em 1979 realizou-se o “Inquérito aos Empregados” endereçando temas como “package de transferências”, A&C, vagas, política salarial, benefícios sociais, carros de serviço.

Com base nos resultados do inquérito foi elaborado um conjunto de propostas de melhoria dos “benefícios sociais” em vigor na empresa e promovido um SPEAK-UP assinado por 276 empregados em Junho de 1981.

Nos anos seguintes essas propostas constituíram o pano de fundo da actividade da CT e foram mesmo, algumas delas, aceites e concretizadas pela companhia. Tal é o caso das extensões do “Plano Médico” à Estomatologia e Oftalmologia (Junho de 1981) e os “subsídios para os estudos dos filhos dos empregados” (Julho de 1982).

Continuaram a ser reivindicados sem sucesso durante este período o “Empréstimo dos 400 contos” e as melhorias do “Plano de Reformas”.

A CT eleita para o biénio 1982/1984, constituída por elementos conotados com os partidos à esquerda do PS, foi introduzindo com força crescente a questão da participação da CT no desenhar das soluções e a questão do acesso à informação, que a lei das CT’s, 46/1979, tinha formalmente consagrado. Esta evolução procedeu em paralelo com as análises e intervenções críticas da CT no plano da organização e situação económica da IBM e mesmo das práticas de gestão.

A CT tenta mesmo em 1983, através da recolha de assinaturas de 284 empregados adquirir o direito a discursar no “Kick-off Meeting”, reunião que no início de cada ano fazia o balanço dos resultados do ano anterior e esboçava a estratégia e o plano do ano seguinte. O discurso, que não chegou a ser proferido, foi no entanto publicado pela CT.

A partir de 1982 acentua-se a vertente de comunicação da CT com os empregados. O lançamento do jornal “Factos & Argumentos”, que viria a publicar dezoito números até 1989, constituiu uma viragem no estilo e influência do processo de comunicação. No segundo número do “Factos & Argumentos” (Maio de 1982) é feita uma análise crítica do OPINION SURVEY de 1980 como forma de “preparar” os empregados para uma nova ocorrência do programa que teria lugar em 1982 demonstrando, pela crítica ao tradicional simulacro de participação na gestão, que a CT apostava no reforço do espírito crítico dos seus representados.

A agudização dos temas da “falta de diálogo” e da recusa de prestação de informações pela Administração, colocando a CT numa postura muito mais agressiva, pode ter sido a causa de uma nova politização das eleições em 1984, as mais renhidas e dramatizadas durante os anos em análise. O próprio Administrador-delegado da IBM não se coibiu de dirigir uma carta aos empregados incitando-os a votar (26/3/1984).

Concorreram duas listas, claramente alinhadas à esquerda e à direita, e a CT para o biénio 1984/1986 resultou composta por quatro elementos da “lista de esquerda” e três elementos da “lista da direita”.

É no Verão de 1984, com esta CT em funções, que as tensões acumuladas redundam no “conflito das grelhas” em que a CT, suportada numa votação em Reunião Geral de Trabalhadores, procura forçar a Administração a tornar públicas as regras que determinavam anualmente as percentagens e prazos dos aumentos salariais dos empregados.

Desse “braço de ferro” resultou a suspensão, por seis dias, dos membros da CT conotados com a esquerda (Alexandre Reis, F. Penim Redondo, Ludgero Pinto Basto e Vasco Almeida) e a sua reacção em tribunal que se viria a prolongar até 1994. Nesse ano foi exarado o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que forçou a IBM a anular as sanções aplicadas e a pagar os montantes correspondentes aos dias de suspensão.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O fenómeno "CT da IBM"



Existiu Comissão de Trabalhadores na IBM, ininterruptamente, nos vinte anos decorridos entre 1974 e 1994; desde a Comissão Executiva nascida nos alvores do PREC até à sua versão madura que em 1993 ainda tinha energia para realizar o paradigmático “Inquérito – Imagem da Gestão” (uma assembleia de voto em que os empregados classificaram os membros do "Board of Directors").

A primeira questão que se levanta é a de perceber o porquê da persistência desta estrutura representativa dos trabalhadores, muito para além do prazo que as condições salariais e profissionais, as características da empresa e a prática nas suas congéneres permitiriam augurar.

Em nosso entender as razões, sendo múltiplas, deverão ser enquadradas pelos seguintes factos:

- O estilo de funcionamento da CT consistiu na disputa, à hierarquia da IBM, da influência sobre a “opinião pública” evitando cuidadosamente a radicalização dos processos e apostando na credibilidade da comunicação. A única excepção a esta regra foi o “caso das grelhas” ocorrido em 1984 e que só foi resolvido por acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 1994.

- As “bandeiras reivindicativas” empunhadas pela CT ao longo dos anos acompanharam de perto, e adaptaram-se, às vicissitudes económicas da empresa

- As relações profissionais e os padrões de desempenho típicos da IBM constituíram uma “base cultural” favorável ao funcionamento consistente da Comissão de Trabalhadores.

- A célula do PCP, organização que mais velou pela sobrevivência da CT da IBM mesmo quando brevemente na “oposição”, revelou uma peculiar coesão e persistência.

- Passado o período inicial do PREC a actividade da CT foi sistematicamente isolada das vicissitudes partidárias e respeitou escrupulosamente o seu carácter “reivindicativo” embora a influência dos partidos continuasse sempre subjacente.

Vinte anos depois do 25 de Abril era já possível constatar, através dos resultados dos “Opinion Survey”, uma notória transformação na “consciência colectiva” dos empregados da IBM no que toca às relações com o seu empregador. Uma atitude condescendente e receptiva ao paternalismo ainda maioritária durante o PREC tinha dado lugar, no início dos anos 90, a uma notória ansiedade quanto ao futuro e a muitas dúvidas sobre a capacidade da empresa para vencer as dificuldades trazidas pelos novos condicionalismos do mercado.

Se é verdade que essa transformação não resultou exclusivamente da acção da CT também é verdade que, sem o seu trabalho de perspectivação, a profundidade das mudanças de mentalidade poderia ter sido menor.

Apesar de terem mantido sempre invejáveis níveis salariais e um generoso leque de benefícios sociais os trabalhadores da IBM foram tomando consciência do carácter excepcional das vantagens competitivas da sua empresa e habituaram-se a “subir a fasquia” de acordo com a dimensão invulgar que os resultados líquidos anuais iam patenteando. Para isso contribuiu a permanente atenção da CT relativamente às empresas nacionais congéneres e às sucursais da IBM noutros países, no âmbito do “sindicato internacional” IWIS – IBM Workers International Solidarity.

Quando no fim dos anos oitenta as vicissitudes do mercado e da tecnologia interromperam uma prosperidade que parecia acima de qualquer suspeita e a empresa teve que lutar pelo seu lugar de leader e, quem sabe, pela própria sobrevivência as reivindicações passaram a centrar-se na qualidade da gestão e na protecção dos trabalhadores contra a tentação de conseguir soluções fáceis sacrificando as regras de respeito pelo indivíduo que sempre tinham constituído património da IBM.

Embora a participação nas votações tenha diminuído ao longo do tempo é curioso verificar que os elementos eleitos para a CT pela lista vencedora obtiveram um número de votos idêntico em 1984 (no auge das disputas entre listas de “direita” e de “esquerda”) e em 1992 (quando oito anos depois já só a lista de “esquerda” concorria às eleições sem oposição).
Foi essa “base eleitoral” activa de cerca de 230 trabalhadores que permitiu manter a Comissão de Trabalhadores até 1994, correspondendo à necessidade de representação colectiva num período em que as mutações sociais e tecnológicas eram cada vez mais interpretadas como fontes de instabilidade.

A história deste percurso constitui demonstração, ao arrepio das concepções vulgares, de que é possível desenvolver uma actividade consequente de tipo sindical mesmo quando os destinatários auferem salários e regalias sociais muito superiores à média.
Os efeitos de tal actividade podem não ser decisivos para o efectivo nível de vida dos trabalhadores mas são certamente um grande salto na consciência da relevância da sua contribuição profissional para o processo de criação de valor.